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"O bom do livro é que quando ele acaba continua cheio e a gente pode ler de novo" (Joaninha,3 anos)

sábado, 20 de janeiro de 2024

Seis ebooks para free download

 Clique nos links para acessar ou fazer o download em PDF grátis. Aceite o desafio de sair de seu falso conforto psicológico e penetre no mundo miserável da cidadã Maria, (Maria da Silva) na loucura do normal professor J.C. (A conspiração de Santo Antonio do Desamparo), na real crença do descrente Arthur, (Angústias de um peixe-voador), na tragédia de uma viuvez (As brumas não são eternas). Não os veja como personagens fictícios, eles podem estar presentes em você, miseravelmente desnudo em "O infinito não tem pressa"... Depois viva intensamente com "Quimeras Incas", ainda há tempo...

ANGÚSTIAS DE UM PEIXE-VOADOR

"Era um cérebro instalado em um barco de carne e ossos ao sabor das ondas sociais, pronto a saborear as mais diversas paisagens como pano de fundo ao seu filosofar. Questionamentos de terceiros eram apenas o murmúrio do mar, assovios dos ventos." 

Arthur e o encarar do real com a coragem de virar as costas para os robotizados cidadãos "bem-sucedidos". Via-se como um peixe-voador que havia nascido quando principiava a sair d'água para seu salto e que, momentos depois cairia novamente na inconsciência quando voltasse a tocar na superfície límpida, calma, indiferente de um mar infinito chamado Universo. Sabia que nesta reentrada por mais que se agitasse apenas provocaria alguns respingos que logo desapareceriam. Sabia que era nada e tudo ao mesmo tempo, pois era de Arthurs, pedras, árvores, água e tudo mais que era formado o Todo, peças intercambiáveis construindo ao acaso. E o acaso dotara Arthur de uma qualidade duvidosa, a de, neste salto milimétrico e efêmero, fazer uso de uma consciência transitória, ver-se, sentir-se, observar. Era um pobre ser humano, a mais inútil das criaturas numa realidade igualmente inútil.

MARIA DA SILVA

Maria é uma catadora de lixo. Sem descrições supérfluas, assim a imaginação do leitor comporá o ambiente lendo o drama com o cenário que conhece, que acontece perto de si, que visualiza no dia a dia e cujo cerne desconhece ou finge não conhecer. Diariamente Marias morrem de inanição e doenças não tratadas, numa breve e trágica passada pela vida levando consigo toda uma história ignorada pelos demais distintos cidadãos. 

A CONSPIRAÇÃO DE SANTO ANTONIO DO DESAMPARO

Entre na mente do professor J.C. Raciocine em conjunto e acompanhe os passos lógicos e convincentes. Olhe para fora e veja um mundo perverso e ameaçador através da fragilidade do chip orgânico chamado cérebro, de uso contínuo, acumulando os arquivos fragmentados de sonhos desfeitos, ódios recalcados, medos, decepções e tristezas sem que seja feita no decorrer de sua vida útil uma manutenção efetiva, uma limpeza de disco, uma desfragmentação, um escaneamento com antivírus. J.C. é a vítima e o vilão também existe para todos nós que o adulamos, servimos, tentamos conquistar, enchemos-lhe de sorrisos e acenos mas é um monstro hipócrita, amoral, cruel, castrador, dissoluto, ditatorial: a Sociedade. 

AS BRUMAS NÃO SÃO ETERNAS

Transcorreram céleres os 80 anos desde meu nascimento. Mas só agora medito mais frequentemente sobre isso, só agora quando tudo está quase parado, tudo parece penosamente em câmera lenta como num filme, um filme de terror… Considerando o tempo de vida de meus falecidos pais ainda teria uma década pela frente, mas definho. Sei que ainda consigo andar, mas não me deixam. Ainda posso falar, mas para quê? Para me ignorarem como a uma criança ou pior, mandarem-me calar? De meu, só meu, inalcançável pelos inimigos tenho a mente que luta para se manter lúcida a cada dia, cada minuto. Uma cidadela ainda segura. Fora dela tudo são brumas onde prudentemente devo permanecer com o mínimo de movimentação possível, sem interferir, acatar sem protestar para fugir ao castigo. Sou um objeto frágil, obsoleto, portanto descartável. Quem são os inimigos a quem a bruma favorece? São aqueles que me enxergam como um alvo a ser espoliado e outros mais jovens, cheios -por enquanto- de vigor que investidos de autoridade dada por tempo passado em uma sala de aula e não pela vida, ignoram meus pedidos de socorro e apenas sorriem com ar de comiseração e que não entendem que estão cursando, na Universidade da Vida, o estágio para a velhice e todos os que a morte não surpreender antes receberão seu diploma, serão o que hoje sou. Meu corpo é um invólucro jogado de um lado para o outro, massa que deve se apresentar inerte, que todos esperam que esteja inerte, que não atrapalhe a velocidade inútil da sociedade em sua desabalada corrida sem rumo.

Um relato na primeira pessoa e comentários na terceira pessoa de uma arrasadora viuvez e suas consequências, a busca por uma solução passando por pensamentos suicidas e chegando à contratação de um cuidador de idosos para amenizar a solidão; os maus tratos decorrentes, fragilizado e nas mãos de um casal de pequenos vigaristas. A degradação paulatina, a busca de explicações lógicas para aceitar a humilhação e a salvação representada por uma maravilhosa e decidida mulher... 


O INFINITO NÃO TEM PRESSA

Tragicomédia em muitos atos representada pelos humanoides no teatro Planeta Terra (pretensa propriedade de um suposto Deus) com direção do ausente Estado) 

Este livro, de convicta lavra ateísta, contém conceitos que embora frutos de coerente raciocínio podem, por força da hipocrisia social e ambiguidade das leis serem tomados por apologia ao anarquismo, violência e racismo. Não é um manual, tampouco autoajuda, devendo ser entendido como um contrapor racional às discussões sobre os citados assuntos, usando o direito da livre manifestação do pensamento. Leitura, portanto não recomendada a indivíduos sugestionáveis, abrangidos aí os adolescentes.

Este não é um livro politicamente correto. Os conceitos nele contidos não sofrem a influência ridícula e ficcional das religiões, não acatam as imposições ditas científicas incompreensíveis e aceitas sem contestação, nem as inconsequentes, teóricas e irreais prosopopeias acadêmicas, não se curvando às pressões de grupamentos raciais, políticos ou sociais que em nome do chamado “politicamente correto” querem impor sua incapacidade e incompetência como direito às benesses conseguidas pelo esforço dos demais. A primeira parte, A angústia de Deus, é uma teoria mais plausível, mais digerível, do surgimento do Universo, sem dogmas e deuses barbados fabricando criaturas pouco funcionais, com intestino grosso e delgado, pâncreas, amígdalas e outros complementos estranhos -por quê não uma que se alimentasse de ar, por exemplo- e, na segunda parte, Os filhos do Nada, uma vez deixado claro que somos fruto do acaso, sem prêmios ou castigos de hipotéticos céus ou infernos, tento fazer um balanço do caos que é a vida inteligente no planeta, nossos muitos erros e poucos acertos em busca de um rumo, tentando fugir da Grande Manada, a terceira e simbolicamente derradeira parte…


QUIMERAS INCAS

Passados quinze anos de esperanças, descendo e acelerando na ladeira da morte, resolvi abrir mão das minhas toneladas de riqueza e história lacradas na lama amazônica, não por altruísmo, mas por absoluta impossibilidade de conquistá-las sozinho e a consciência de que o peso dos problemas será igual ao peso do ouro. Ouro? Quem disse ouro? Este nome poderia ser somente uma alegoria, batizando algo bom e desejado e ao mesmo tempo maldito, porque me perseguiu e me fez abrir mão da tranquilidade de vários empregos seguros por saber que ele me acompanhava, me esperava. Como um bilhete de loteria premiado em mãos, é só ir lá receber... Mas alternava desejo e desprezo. Lugarzinho difícil, maldito, achado porque minha copiloto era neófita na região e eu, displicente comandante antigo, deixava o pesado helicóptero vagar em sua rota no Paraíso Verde, ora à direita, ora à esquerda, por ter em minha mente a posição do rio Juruá e a qualquer momento podia assumir o controle e aproar para ele, seguindo até nosso destino. Fui falar em ouro, muito ouro, então, para evitar complicações e correrias, deixo claro que isso aqui é um romance escrito por um velho enfadado para passar o tempo restante neste planetazinho ordinário. Se for perguntado, desminto tudo. Têm personagens verdadeiros? Alguns. Locais verdadeiros? Alguns. Relatos verdadeiros? Alguns. Tudo misturado para não ter muito trabalho mental ao escrever. Se querem verificar, perguntem aos personagens verdadeiros, eles se lembrarão de algumas passagens. Chequem os mapas, lá estarão algumas curvas de rio importantes... Juntem tudo e terão a verdade. Querem ir lá? Não recomendo, mas tudo é aventura e surpresas acontecem. Tranquilo ao escrever após tanto tempo, pois quem conhece a Amazônia sabe que um cadáver não fica apodrecendo no mesmo lugar, dissolve-se e vira adubo, mas só o pouquinho que porventura sobrar do banquete animal. Escritor amador, já falei demais na primeira página, em vez de fazer suspense e deixar as coisas acontecerem em seu devido tempo... Colocando as ideias em ordem, caminho lentamente pela sala de meu velho casarão nesta manhã de sábado, todas as janelas frontais – e são muitas – estão fechadas, apenas as laterais eu tenho aberto ultimamente. Já não existo, nada mais a dizer. Mas sim escrever, a última travessura, lançar a confusão e fugir para o túmulo... Contemplo meus móveis antigos, minhas fotos de África, a gloriosa verde e branca bandeira da Rhodesia dependurada na parede. Olho para o canto da biblioteca e abro um largo e raro sorriso. Sobre uma base de madeira, mogno creio eu, está minha peça de trator, com a qual todas minhas ex esposas implicavam, “que disparate”, uma peça feia, pesada, “você nunca teve nada com tratores”, “não tem nada a ver com a decoração”... Até mesmo os ladrões quando roubaram a casa no sítio em uma de minhas várias ausências, desprezaram-na. Levaram minhas peles de onça, antiguidades, mas a roda motriz 320 da Caterpillar, com seus incômodos 36 quilos, pintada com o clássico amarelão, lá ficou, sem valor, sem importância. Escrito com pincel e tinta preta, grosseiramente, lá está o S/N, o “serial number” se destacando contra o amarelo:8E9805. Assim, desprezada, ela viajou de Eirunepé, Amazonas, dentro de um rústico engradado, com alguns pedaços de papelão nas bordas, reforçado com aquelas tirinhas metálicas para não romper, numa balsa até Manaus. Sem seguro, declarada como peça recondicionada, sem valor comercial... Depois Belém, ainda de balsa, depois São Paulo, na carroceria de um caminhão de transportadora. A recebi passado uns dois meses, caixote todo se arrebentando pelos maus tratos. Trinta e seis quilos de ouro inca que não tive coragem ou necessidade de usar durante 15 anos... Ínfima parcela do que me esperava lá na selva, com o mapa guardado aqui na cabeça, apenas alguns lingotes que pude carregar, deixados no terreno pelos saqueadores... A ideia fora muito boa para se livrar da fiscalização rígida, controlando a saída do ouro de garimpos clandestinos, rígida porque buscava angariar subornos...A peça velha do trator de esteira, a primeira que achei no ferro velho, areia fina molhada e prensada para o molde e um maçarico bastaram. Depois, o acabamento com uma lima, um pouco de tinta amarela e preta e foi só despachar, do modo mais barato possível disponível na praça. Nunca a considerei dinheiro, porque não a enxergo na cor amarela, apresenta-se vermelha, de sangue. Não valeu a pena... O que chamo de ouro, quimera, não mais me fará diferença e os cadáveres que aparecerão na história, tenho certeza que não estarão no terreno onde foram deixados, quinze longos e úmidos anos atrás. Isto é um romance, caras autoridades...  


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Longe da exagerada ficção, as vidas de Arthur, Maria, J.C. e o octogenário viúvo estão, diria eu, aquém do cruel e indiferente real. É preciso encarar a vida sem o escudo confortável de um suposto Deus e o estelionato das promessas de paraísos pós morte. A duvidosa benesse de uma consciência fugaz, transitória, presente na inteligência rudimentar desenvolvida nos humanoides só tem produzido resultados desastrosos em relação aos outros animais que se desenvolveram neste mesmo planetinha vulgar; estimulamos e desenvolvemos a agressividade além corpo com armas de destruição, usamos a mente para manter um perpétuo cio superlotando a superfície terrestre além do que ela pode suportar em alimentos e usamos a filosofia equivocadamente partindo de bases frágeis e insanas que nos colocam como seres superiores. Não passamos de um corpo abobalhado e frágil  arrastado aos trambolhões por um cérebro instável e desordenado, um computador primário infestado de vírus e sobrecarregado por arquivos inúteis e corrompidos. 

SOBREMESA: Para não ficar o gosto amargo, vamos adoçar com dois contos infantis, também grátis: O Rei Gordo Barrigudo e As feias bruxas, as belas princesas, e seus castelos sempre distantes... Boa leitura!
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PS. Algumas obras acima se encontram à venda nas livrarias, em edição impressa e versões em inglês, espanhol, italiano e alemão.

domingo, 22 de setembro de 2019

Do surgimento aleatório do ser humano ao progresso rumo a sua extinção

P.A.Marangoni

E “Deus” criou o homem, o ornitorrinco e o pangolim... Imaginação fértil a do barbudo, só não suplanta a do próprio homem que O criou para não se sentir uma obra do acaso.

Cheguei aos 70 anos, prestes a ser desmontado e olho para trás. Realizei coisas interessantes nas passadas décadas, mas que foram engolidas pelo tempo, esse vilão que não conseguimos entender e dominar, e tudo o que fiz, passei, realizei, tem a mesma textura palpável de um filme de ficção ou uma historinha infantil, ou seja, nada. Qual o valor da vida? Qual o futuro do animal humano que desenvolveu a capacidade de acumular conhecimentos e ao juntá-los consegue tomar atitudes e criar eventos aparentemente inéditos, mas que não passam de uma mistura de experiências já vividas, próprias ou alheias? Mas o animal homem chama isso de inteligência e se acredita superior aos demais seres viventes do planeta, todos surgidos aleatoriamente – inclusive o próprio planeta.

E o Homem idealizou Deus, os anjos, a alma... Imaginação fértil a dos bípedes pelados, juntando fatos que não entendem mas os veem como um aval à sua superioridade e da garantida continuação da vida após a morte, um evento que nada mais é que a dissolução de um ser vivente que retorna ao estado original de partículas que se aglutinarão às demais ou vagarão como gases por aí, sem qualquer consciência.

A vida consciente ou qualquer forma de vida e o próprio Universo, não tem sentido ou valor, pois não ser é superior a ser, o Nada é superior ao Todo. O tempo engole a tudo e a todos e não os defeca, nada resta num tempo infinito.

O futuro distante não é o paraíso sonhado. Com plena “felicidade” advinda do conhecimento não há necessidade de vínculos afetivos, o indivíduo se basta; com pleno conhecimento para manter indefinidamente os arquivos da mente de forma artificial e aperfeiçoada, não há necessidade de um corpo perecível para armazená-lo e elimina-se a procriação, ato primitivo de seres de curta duração para a sobrevivência de sua Espécie. Assim será o futuro, seres de material artificial e renovável, autossuficientes, rumando para a construção de uma única máquina que englobe todo o conhecimento, o que tornará obsoleta a função do “poder”, origem dos nossos  males. Verdadeiramente será essa máquina o “Deus” real. Os humanos de carne e ossos são apenas formas de vidas intermediárias, que deram início ao processo mas destinadas à extinção por sua própria vontade, através da evolução. E depois virá o Nada, pois uma máquina perfeita saberá que o Nada é infinitamente superior à existência e se auto consumirá, levando consigo todo o inútil Universo.

domingo, 10 de março de 2019

Maria da Silva: Lediglich ein Bild des brasilianischen Alltags





Man kann "Maria da Silva" nicht als Science-Fiction  bezeichnen, weil es ein Porträt des Alltags ist, ohne zu beschönigen. Ein kleines Buch über die kurze Lebensdauer einer Müllsammlerin. Hier gibt es keine überflüssigen Beschreibungen, so dass die Phantasie des Lesers die Umgebung zusammenfügen muss, indem er das Drama im Rahmen der Szene liest, die er kennt, die sich in seiner Nähe abspielt, die er im Alltag visualisiert und deren Herz er nicht kennt. "Marias da Silva" sterben täglich an Hunger und unbehandelten Krankheiten in einer kurzen und tragischen Reise des Lebens, und bergen darin eine ganze Geschichte, die von anderen Mitbürgern ignoriert wird. Es ist an der Zeit, sie als menschliche Wesen zu sehen, und dieses kleine Buch kann dabei helfen. Ich habe das Gefühl, dass das Werk nicht mir gehört, ich bin nur der Moderator der Botschaft von Maria da Silva. Ich glaube, wenn sich einige Leser ändern, nachdem sie dies kennengelernt haben, und sei es nur, dass sich der Ausdruck ihres Blickes auf die Müllsammler ändert - die das Verabscheute sammeln und nicht betteln - wird die mir zufällig anvertraute Mission erfüllt sein ...


MARIA DA SILVA

quarta-feira, 4 de julho de 2018

OS VARÕES ILLUSTRES DO BRAZIL DURANTE OS TEMPOS COLONIÁES



“Os varões illustres do Brazil durante os tempos coloniáes” de J. M. Pereira da Silva é uma obra que através do tempo tornou-se preciosa para pesquisadores e leitores curiosos como um interessante retrato de época, quando, sem os recursos de mídia de hoje, a literatura em prosa e verso tinha um peso igual aos discursos políticos, até mesmo mais difundidos por usar um veículo lúdico. Poetas ou políticos, cientistas ou religiosos, foram poucos os que conseguiram romper as névoas do anonimato em um período de parca comunicação e permanecerem como os varões illustres dos tempos coloniais até nossos dias. Procurando a obra de J. M. Pereira da Silva, encontrei várias cópias impressas e arquivos digitais, muitas até gratuitas, mas todas em fac-símile, o que dificulta a leitura, estudo ou consulta pelo tipo da impressão original, centenária! Para oferecer uma opção mais prática, formatei o texto em Arial 12, atualizei o sumário, ilustrei com os personagens e suas obras e editei os dois tomos num só arquivo, que disponibilizo abaixo para os interessados. Mantive a grafia original, pois assim permanecendo, sem que a compreensão seja afetada, torna-se um fator a mais para nos envolver nesse saboroso mergulho na História.






quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Eutanásia,o suicídio e o romance "Johnny vai à guerra" de Dalton Trumbo

Aos que não admitem as duas alternativas citadas no título acima contra o sofrimento físico ou mental,sugiro que assistam ao sufocante e inesquecível filme originado deste aterrorizante livro,aterrorizante porque real,porque nos dá uma cutucada nas costas -hei,você!!- enquanto tentamos passar apressadamente por casos semelhantes fingindo nada ver e nos atira a podre hipocrisia social na cara. O romance baseado em fato real sobre um jovem soldado da primeira guerra mundial que mutilado -sem braços,pernas, cego, mudo- resume-se a um tronco jogado em uma cama mantendo um cérebro com consciência plena,na mais completa angústia de não poder se comunicar e -sem meios de se matar- ter a tortura de viver prolongada inutilmente em nome de princípios éticos e religiosos dos que o “cuidam”. Não é relevante que seja um mutilado de guerra; poderia ser uma vítima de acidente automobilístico, uma doença incurável ou mesmo sobre um ser saudável que por filosofia própria não deseje mais viver, mas seu sofrimento é prolongado inutilmente pelos demais membros da sociedade humana atrelados à regras, crendices, medos, covardias e de indevida autoridade sobre a vida alheia.

O livro, de aproximadamente 230 páginas publicado em 1939 é encontrado em português; quanto ao filme, que recomendo pela sua dramaticidade plenamente explorada pelo próprio escritor que dirige sua obra no cinema, pode ser encontrado em DVD. Dalton Trumbo, autor do livro e diretor do filme, apesar de sua atribulada vida política, é um profissional ímpar, roteirista de obras como Spartacus, Exodus, Papillon, Roman Holiday (Oscar de melhor história, 1953), The Brave One (também Oscar de melhor história em 1956). As lembranças,sonhos ou alucinações do jovem mutilado nos são apresentadas em cor, enquanto que no tempo presente,na cama de hospital, as imagens são em branco e preto. A angústia presente durante o transcorrer do drama é arrematada por um final que nos deixa sentados inertes, com uma sensação acovardada de “não devia ter assistido”... Não recomendo a quem prefere passar ao largo de verdades que nos apontam o dedo acusador. Recomendo firmemente aos contrários à eutanásia e os que criticam os suicidas.


Considero o suicídio uma decisão soberana de cada ser humano, um direito inalienável, indiscutível. Quanto à eutanásia, os ventos da racionalidade já começam a soprar favoravelmente com vários textos sendo analisados no Senado, além de uma legislação flexível que permite ao juiz julgar caso a caso e inclusive deixar de aplicar a pena. Em casos irreversíveis de doenças ou traumas,desde que atestado por dois médicos é permitido que aparelhos que mantenham artificialmente a vida sejam desligados.(ortotanásia). Aos que após assistirem o filme e começarem a ter pesadelos -plenamente justificáveis- lembro que é possível e legal o Testamento Vital, que segundo o Conselho Federal de Medicina, pode ser feito por qualquer pessoa maior de 18 anos, mentalmente saudável e inclusive -por vias de dúvida- nomear um representante legal para garantir que a vida do interessado não seja prolongada inutilmente e nem mesmo os parentes próximos poderão contestar.

Clique aqui e tire suas dúvidas


A vida não tem preço? Isso é um problema de cada um,único dono da própria; cabe somente ao proprietário estipular seu preço e sobretudo seu prazo de validade...




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“A morte, eleita livremente, a morte no tempo certo, com claridade e alegria, empreendida em meio a crianças e testemunhas, de modo que uma real despedida ainda é possível, onde este que se despede ainda está aí, assim como uma apreciação real do que foi alcançado e querido, uma soma da vida – tudo em contraposição à comédia deplorável e horripilante que o cristianismo levou a cabo com a hora da morte (…) a morte sob condições desprezíveis não é uma morte livre, ela não é uma morte no tempo certo, ela é a morte de um covarde. Dever-se-ia por amor à vida – desejar a morte de outra forma, a morte livre, consciente, sem acaso, sem a tomada de assalto…" (Nietzsche)


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A Glimpse of Brazilian Reality


“Maria da Silva” is not entirely a work of fiction but more like an unembellished glimpse of Brazilian reality. A thin book about the short life of a rubbish scavenger. The lack of superfluous descriptions here is intentional so the mind of the reader can recreate a setting that is more familiar to him or her. A place they might see on a day-to-day basis but whose essence they do not understand. "Marias da Silva" die every day of starvation and untreated diseases in a brief and tragic passage through life, taking with them a story that is overlooked by most. It is time for us to look at these people as human beings and this thin little book may help with that. I feel that this work is not mine. I am only the deliverer of Maria da Silva's message. I believe that if a few readers change after reading this, even if only by the expression on their faces when they see a rubbish scavenger - who lives from things unwanted and not from begging - the mission I have been given by chance will have been accomplished.


Amazon


domingo, 29 de janeiro de 2017

A inútil busca da felicidade

“pagãos inocentes da decadência” (f.pessoa)


As crianças –só as pequeninas-  são as únicas verdadeiramente felizes. Vivem o momento. São felizes porque não tem conhecimento. Ainda não se descobriram, nem aos demais pobres seres semelhantes. Depois são paulatinamente esmagadas como todos os adultos pela noção, ainda que recusada e escondida num recanto do cérebro, de uma existência cruel rumo ao nada, engolfados por uma coleção de complementos inventados para obnubilar a consciência e o acúmulo de saber inconcluso  que espicaçam a cada ato, a cada momento, e deixam o humano no limiar do desespero ou da loucura, que nada mais é que outra forma de viver, tão válida como a dos chamados sãos. O final será o mesmo para ambos. O que é a música, o amor, as bebidas, as drogas, as religiões, os deuses, senão fórmulas exatamente iguais de enevoar, atenuar uma existência absurda, inútil? 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Maria da Silva - una cronaca brasiliana




Non si può affermare che Maria da Silva sia un lavoro di finzione, perché è una cronaca del quotidiano senza ritocchi. Un piccolo libro sulla vita breve di una rivenditrice di spazzatura. Qui non ci sono descrizioni superflue, così l’immaginazione del lettore, mentre legge il romanzo, comporrà l’ambiente con lo scenario che conosce, che si svolge vicino a lui, che visualizza giorno per giorno e le cui dinamiche gli sono ignote.
Le “Maria da Silva” muoiono quotidianamente di inedia e di malattie non curate, in un breve e tragico cammino di vita, portando con sé un’intera storia ignorata dai più. È ora di vederle come esseri umani, e questo piccolo libro può aiutare. Sento che l’opera non è mia, io sono solo un tramite del messaggio di Maria da Silva. Credo che se qualche lettore cambierà dopo averla conosciuta, che sia solo nello sguardo che lancia ai senzatetto che rivendono spazzatura -che estraggono quello che viene disprezzato, senza elemosinarlo- la missione che mi è stata assegnata dal caso sarà compiuta.
                                                                                                                      
 
 
Impresso, $5,99
  • Paperback: 66 pages
  • Publisher: Babelcube Inc. (January 21, 2016)
  • Language: Italian
  • ISBN-10: 1507130155
  • ISBN-13: 978-1507130155

  • E-book, $2,99
    ISBN-13: 2940152774467


     

    terça-feira, 15 de setembro de 2015

    Livro de Graça na Praça






                              “Antes marido feio e laborioso que bonito e preguiçoso”



    Gato escaldado tem medo de água fria e Rosa Maria embora acreditasse que águas passadas não movem moinhos, não meteria a mão na cumbuca novamente. Aquele malandro do atraente mas arrogante Pedrão arrastava-lhe a asa, não largava do seu pé depois de um namorico complicado nos tempos de escola. Mas nada como um dia após o outro e ele ficara para trás, iletrado, colecionando provérbios populares no barzinho, vivendo às custas dos pais e ela se formara, era agora a professorinha do lugarejo.

    Pedrão queria Rosa Maria que se contentava com o Hermínio do cartório. Quem ama o feio bonito lhe parece e o fisicamente insonso funcionário era tido como intelectual, fazia seus versos, discutia literatura com ela, preenchia seu tempo vago. Iam tocando o burro da vida sem tombar a carrocinha, num relacionamento chove não molha...

    Mas Pedrão não se conformava e insistia, não há rosas sem espinhos e água mole em pedra dura tanto bate até que fura, raciocinava ele. O problema era a tal de cultura do franzino rival, ginasial completo. De grão em grão Pedrão enchera o papo de ditados, citações e os usava para tentar impressionar sua desencantada musa, respostas pré fabricadas que nela entravam por um ouvido e saiam pelo outro.
    - Pedrão, entenda, estou bem com o Hermínio, nosso caso passou, acabou!
    - Nunca digas desta água não beberei, Rosinha...
    - Desista!
    - Quem espera sempre alcança...

    A necessidade é a mãe das invenções e Pedrão dava tratos à bola para descobrir um meio de impressionar Rosa Maria, entrar no campo do adversário, a cultura. O tempo passava e ele não queria dormir na estação e perder o trem. Foi então que surgiu a grande chance:
    - Ei, Rei dos Provérbios, olhe isso aqui! Na sua medida! E o Zé do Bar lhe estendeu o jornalzinho da comarca.
    Na última página leu algo que caiu como colírio em seus olhos: 9º Concurso Nacional de Contos Livro de Graça na Praça da Academia Mineira de Letras, cujo tema “deverá estar relacionado com determinado ditado, provérbio ou locução popular, à escolha de cada autor.”
    - Mamão com açúcar, está no papo -exclamou radiante- achei o caminho das pedras! Araruta também tem seu dia de mingau!
    E devorou a notícia, não sem uma certa dificuldade:
    - Raios, é aí que a porca torce o rabo, muita burocracia, um tal de envelope grande, envelope pequeno, correios, caracteres, laudas... Vou tentar, cobra que não anda não engole sapo. O tempo é curto mas antes tarde que nunca, vou perguntar sobre a tal de lauda lá na tipografia.
    - Lauda é mais ou menos essa folha aqui preenchida, Pedrão, e aí diz no máximo 4 laudas, pode até ser uma só.
    - Dos dois lados?
    - Aí já não sei...
    Pedrão já pensando em esticar as letras para encher linguiça, ponderava: é concurso mineiro, turminha de mão fechada, não tem prêmio em dinheiro mas a cavalo dado não se olha os dentes, quem ganha fica conhecido e a propaganda é a alma do bom negócio. É o que me interessa, mais vale um gosto do que dez vinténs e com fama de intelectual ganho Rosa Maria, dois coelhos com uma só cajadada:
    - É ganhar a fama e deitar na cama!
    - Mas primeiro tem que ganhar, não ponha a carroça na frente dos burros!
    - A formiga sabe a folha que corta, conselho se fosse bom era vendido, não seja derrotista, passarinho que acompanha morcego amanhece de cabeça para baixo! Não há provérbio que eu não conheça, já está no papo!
    - E se ganhar vai é gastar dinheiro, leia aí embaixo, eles tiram o corpo fora, não pagam nem cafezinho!
    - E você acha que vou lá? Basta ter meu nome nos jornais, é melhor dormir sem ceia que acordar com dívidas!
    E com esforço incomum começou a colocar no papel toda sua pretensa sabedoria, certo do direito que dá a César o que é de César e se o rival passava por ser um grande perfume em pequeno frasco, ele, fortão, ganhando o concurso seria um balde inteiro, cheio até a borda!

    Por uma semana deixou até de jogar a sagrada sinuca vespertina, mas não se faz omelete sem quebrar ovos, suspirou filosoficamente o já autodenominado intelectual... Emendou uma série de provérbios sem maiores recheios mas dando-lhes uma sequência, formando um continho e depois de muito penar conseguiu preencher duas das tais laudas, espaço 2, pediu para uma tia corrigir e se deu por satisfeito, sentenciando: panela que muito se mexe ou sai insosso ou salgado. Envelope grande, envelope pequeno, pseudônimo de Trovador da Mantiqueira, conseguiu o carimbo dos Correios no último minuto do derradeiro dia para entrega dos originais. Depois sentou-se na indolência de seu dia a dia e esperou ser comunicado da vitória, afinal o sol nasceu para todos e não seria uma nuvenzinha chamada Hermínio que ofuscaria o grande astro-rei Pedrão...

    A sorte é como o raio, nunca se sabe onde vai cair e a ingenuidade do texto mesclada com a petulância de ganhador por antecipação que no resumidíssimo currículo avisara que não compareceria à premiação, acabou divertindo a comissão julgadora, que talvez cansada de ler textos empolados, acabaram por concordar que afinal aquela obra sem qualquer sofisticação vernácula preenchia o que dela se esperava: distraia, divertia e sem dúvidas era um documento representativo da sabedoria popular. E como besteira pouca é bobagem, acabaram dando ao Pedrão o que era de César.

    Telegrama da Academia, notícias em jornais e até uma entrevista com foto de terno, gravata e mão no queixo no semanário da comarca. Pedrão, o laureado escritor, deitou-se na cama da fama e esperou que Rosa Maria o procurasse, seria magnânimo com ela, afinal, perdoar é uma virtude dos fortes e depois de algum charminho a aceitaria de volta. Durante a gloriosa semana que se seguiu participou de algumas festas e reuniões onde ela também se encontrava e só a cumprimentou com a cabeça, respeitosamente e mantendo a distância. Queria que a jacaré sentisse que a lagoa estava secando. Empinou o nariz e esperou, esperou, mas ela aparentemente desconhecia a parte que deveria cumprir no plano unilateral. Depois soube que ela estava usando seu texto na escola, exaltando os alunos a desenvolverem a escrita e até colocara sua entrevista no quadro de recortes.

    Presunçoso, acreditou entender o porquê dela não se aproximar: vergonha, timidez, afinal, agora ele era um intelectual famoso. Resolveu dar uma colher de chá para a professorinha que deveria estar sedenta de beber de sua sabedoria, acercou-se dela na saída da escola e certo do sucesso, foi direto:
    -E ai, Rosa Maria, andei pensando, acho que já é tempo de acertarmos os ponteiros, vamos juntar os trapos?
    Rosa Maria boquiaberta com o que ouviu, esbugalhou os olhos, deu uma sacudidela na cabeça e disparou:
    - Tá maluco Pedrão? Já falamos sobre isso, é assunto morto e enterrado! Estou com o Hermínio, ele me faz companhia, tem boa cultura, é um bom homem!
    Pedrão, desconsertado com a inesperada recusa, caindo do cavalo ainda balbuciou:
    - Mas eu também escrevo, você gostou do meu conto, eu sei, tem até usado na escola!
    E o “Rei dos Provérbios” e das rápidas respostas pré fabricadas, ficou mudo ao assistir Rosa Maria parir ali mesmo, de bate-pronto, uma inédita e definitiva pérola:
    - E por acaso para saborear um copo de leite é preciso gostar da vaca?

                                                                             fim...





    domingo, 12 de julho de 2015

    A música e a letra da Sinfonia Vida

    Criamos um Deus e a Eternidade para acreditarmos
    no Sempre e rejeitarmos a nós próprios.
    De costas ao espelho do real.
    O silêncio é a única música e os pensamentos a letra
    compostos e regidos instantaneamente na Sinfonia Vida.
    Só assim se é realidade.
    Sem melodias que embalem;
    sem drogas que entorpeçam;
    sem trabalhos que distraiam;
    sem doutrinas que confortem.
    Basta apenas uma coragem sempre maior àquela que a natureza nos concedeu.
    Queremos o Sempre e perdemos o Agora.

    sexta-feira, 6 de março de 2015

    O desventrar do ser social (Coletânea)

    "Era um cérebro instalado em um barco de carne e ossos ao sabor das ondas sociais, pronto a saborear as mais diversas paisagens como pano de fundo ao seu filosofar. Questionamentos de terceiros eram apenas o murmúrio do mar, assovios dos ventos." (Angústias de um peixe-voador)

    Longe da exagerada ficção, as vidas de Maria, J.C. e Arthur estão, diria eu, aquém do cruel e indiferente real. É preciso encarar a vida sem o escudo confortável de um suposto Deus e o estelionato das promessas de paraísos pós morte. A duvidosa benesse de uma consciência fugaz, transitória, presente na inteligência rudimentar desenvolvida nos humanoides só tem produzido resultados desastrosos em relação aos outros animais que se desenvolveram neste mesmo planetinha vulgar; estimulamos e desenvolvemos a agressividade além corpo com armas de destruição, usamos a mente para manter um perpétuo cio superlotando a superfície terrestre além do que ela pode suportar em alimentos e usamos a filosofia equivocadamente partindo de bases frágeis e insanas que nos colocam como seres superiores. Não passamos de um corpo abobalhado e frágil  arrastado aos trambolhões por um cérebro instável e desordenado, um computador primário infestado de vírus e sobrecarregado por arquivos inúteis e corrompidos. 

    Maria é uma catadora de lixo. Sem descrições supérfluas, assim a imaginação do leitor comporá o ambiente lendo o drama com o cenário que conhece, que acontece perto de si, que visualiza no dia a dia e cujo cerne desconhece ou finge não conhecer. Diariamente Marias morrem de inanição e doenças não tratadas, numa breve e trágica passada pela vida levando consigo toda uma história ignorada pelos demais distintos cidadãos. 

    Depois entre na mente do professor J.C. Raciocine em conjunto e acompanhe os passos lógicos e convincentes. Olhe para fora e veja um mundo perverso e ameaçador através da fragilidade do chip orgânico chamado cérebro, de uso contínuo, acumulando os arquivos fragmentados de sonhos desfeitos, ódios recalcados, medos, decepções e tristezas sem que seja feita no decorrer de sua vida útil uma manutenção efetiva, uma limpeza de disco, uma desfragmentação, um escaneamento com antivírus. J.C. é a vítima e o vilão também existe para todos nós que o adulamos, servimos, tentamos conquistar, enchemos-lhe de sorrisos e acenos mas é um monstro hipócrita, amoral, cruel, castrador, dissoluto, ditatorial: a Sociedade. 

    Por fim Arthur e o encarar do real com a coragem de virar as costas para os robotizados cidadãos bem-sucedidos. Via-se como um peixe-voador que havia nascido quando principiava a sair d'água para seu salto e que, momentos depois cairia novamente na inconsciência quando voltasse a tocar na superfície límpida, calma, indiferente de um mar infinito chamado Universo. Sabia que nesta reentrada por mais que se agitasse apenas provocaria alguns respingos que logo desapareceriam. Sabia que era nada e tudo ao mesmo tempo, pois era de Arthurs, pedras, árvores, água e tudo mais que era formado o Todo, peças intercambiáveis construindo ao acaso. E o acaso dotara Arthur de uma qualidade duvidosa, a de, neste salto milimétrico e efêmero, fazer uso de uma consciência transitória, ver-se, sentir-se, observar. Era um pobre ser humano, a mais inútil das criaturas numa realidade igualmente inútil.

    Aceite o desafio de sair de seu falso conforto psicológico e penetre no mundo miserável da cidadã Maria, na loucura do normal professor J.C. e na real crença do descrente Arthur. Não os veja como personagens fictícios, eles podem estar presentes em você. 



    domingo, 20 de julho de 2014

    Inútil empáfia: somos apenas experiências de carona numa massa momentaneamente viva

    Somos apenas um acúmulo de experiências aleatoriamente jogadas em recipientes orgânicos chamados cérebros pela loteria genética, complementados num curto tempo de consciência transitória chamada vida com o que vemos, sentimos, realizamos e armazenamos no DNA. Depois somos descartados e outro e mais outro irão nos sucedendo e somando. Os magnatas, os gênios, os mendigos, reis e escravos de outrora, desaparecidos, transformaram-se em elementos de construção de igual valor para novas formações, deles só o conhecimento impalpável mas gravado restou, em nós.

    O cérebro que permite essa consciência transitória vai de carona num corpo extremamente vulnerável com membros que permitem a locomoção de um lugar para outro e a interação física com o universo e seus componentes orgânicos ou não e que permite a recolha de dados que se somam aos incontáveis registros de bilhões e bilhões de homens que pelo planeta passaram. Apenas mantemos o fluxo de vida, até agora sem nenhuma utilidade prática. Se o conjunto orgânico chamado homem utilidade tivesse, desnecessária se tornaria a reprodução, cada um seria uma peça em constante crescimento intelectual e aprimoramento físico, cada vez menos vulnerável. O fato de nos reproduzirmos demostra que somos apenas transportadores de experiências, para talvez um dia chegar a algo mais perfeito. Notem que nossa chamada vida se resume ao crescimento até o ponto de reprodução, que dura alguns anos e logo após inicia-se o declínio, apenas o tempo necessário para assegurar-se da proteção e crescimento das crias, os novos transportadores. Schopenhauer tem toda a razão: “o homem é apenas um fenômeno, não a coisa-em-si.”

    O acaso segura uma mangueira que molha o Nada. Nós somos as incontáveis gotículas que jorrando, formam o efêmero e inconstante arco...


    segunda-feira, 7 de julho de 2014

    Livro:Palavras Cínicas -de 1905- não envelheceu…

    O português Albino Forjaz Sampaio, foi amado,odiado,elogiado e também ferozmente criticado em seu tempo. Sua obra Palavras Cínicas,escrita em 1905 foi recebida com espanto,acusações de estimular suicídios,”de subverter a moral vigente”mas tornou-se um dos livros mais vendidos em Portugal no século passado. Consegui meu exemplar há mais de quatro décadas e dele nunca me esqueci. Sem dúvida há exageros em suas palavras,mas também muita sinceridade,coragem e perspicácia ao conseguir visualizar as entranhas da comédia humana. Muitos de seus conceitos se aplicam perfeitamente aos vorazes e amorais humanos dos dias de hoje. Abaixo,alguns recortes das oito cartas que compõem o livro. Se as leres no meio dum festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar...
    "...De que te hei de falar? Da vida?

    A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom - tolice - não venhas. Aqui, para triunfar, é preciso ser mal, muito mau. Sê mau, cínico,hipócrita e persistente que vencerás. Serás aclamado,respeitado e invejado. Ri do Bem e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga.

    A satisfação de ver agonizar um canalha, quer ele seja um mártir, que ele seja um ladrão, é maior que a de sentir os braços opulentos duma mulher que se entrega.É menos um. Sê pois forte como o diamante e como o ódio.

    Tudo é egoísmo. Se és bom morrerás como Cristo, se é um tolo morrerás como Judas, se és mau - meu amigo -serás lembrado como Satã.

    Acredita que metade da humanidade nasceu para se rojar pela lama, para que tu, eu, todos os maus, todos os cínicos, a esmagássemos, e lhe cingíssemos fraternalmente as carnes com um chicote. Depois da morte há o Nada. Portanto,meu caro, aqueles que o sabem, o que pensam é em sugar a vida com um furor de agiotas sem entranhas. Isto é como no mar; já Shakespeare dizia que o “mugem vive para ser tragado pelo lúcio".

    Ou serás vencido ou vencedor. Se vencido esperam-te todas as humilhações desde o desprezo até a compaixão. Se vencedor todos os triunfos desde o respeito ao Capitólio. Luta sempre, calado, fino, sabido que se não tens jeito para isto será um eunuco eterno,castrado para a Vida, para o Amor, e para o sonho.

    Acredite que todos se vendem, homens e mulheres,palhaços e imperadores, cristos e mendigos: a questão é de preço e o preço sufoca todas as consciências, todas as revoltas.Acredita que falta quem compre toda a gente que se quer vender.

    A geração é de cobardes e “ cada ano que passa está mais corrupto o mundo ( Maximo Gorki).

    Foi em Dostoiwsky que eu encontrei um dia esta frase: “No fundo de cada um dos nossos contemporâneos residem latentes os instintos dum carrasco!”

    A diferença que vai daquele bandalho, que passa de chapéu alto, àquele malandro, que pisca os olhos e pede esmola, não é nenhuma. Pura convenção. Se tu fosses buscar uma rameira de hospital e a toucasses de sedas ela arranjaria corte.Viriam a seus pés os famintos, as rascoas, os interesseiros, os honrados, os banqueiros, o mundo todo.

    O rosto que ri não é o mesmo que chora? A boca que canta e ri não é a mesma que ameaça e insulta, que suspira, que geme e que reza? Os olhos não veem Deus e o Diabo? As almas não servem a ambos, atraiçoando ambos?

    É preferível ver um cano de esgoto em toda a sua porcaria a uma alma em toda a sua intimidade. Há almas cuja treva é maior que a noite, consciências cuja lama é maior que a de todos os pântanos da terra.

    À face da terra o homem não tem feito senão mal. Foi ele quem inventou os tronos e os altares, que fez a Verdade e a Mentira.

    Se queres ser feliz sê, como eu, brutal na posse, canibal na ambição, sem uma aresta de apego a uma alma,pisando sempre, avançando sempre, crânio de sílex na energia, coração de sílex nas dedicações e nas torpezas.

    A vida é dos de coração gelado e hirto. Amanhã é tarde,depois é impossível. Tudo na vida é mudável, tudo na vida é transitório. Tudo passa, tudo esquece. A criança será homem, o lacaio será senhor, o arbusto será árvore, o ontem será hoje, o bom será mal. Ai dos que param, ai dos vencidos!

    A honra? A honra é uma fórmula, É pagar uma letra no seu prazo com dinheiro que se ganhou a traficar escravos; é ser torpe sem que ninguém o diga; é roubar sem que o roubado acuse.Há mulheres sem honra que todos cortejam, virgindades imaculadas que todos desprezam.Religiões? A religião é uma comédia cuja representação já dura há séculos. Fez sucesso! é uma coisa fútil e extravagante que se parece com as histórias dos gnomos e das princesas encantadas. Quem a não tem,compra-a. Para que servem os padres senão para “ venderem Deus por grosso e a retalho”(Zola)

    Sê sempre mau e faz sugerir aos outros que és bom, sê sempre torpe dizendo-te honesto. Nada de violências. Hipócrita, cauteloso e subtil, conseguirás tudo, serás tudo, terás tudo. Uma hora de amor duma casada, uma condecoração, um emprego, a confidência dum segredo que compromete, dum vício que aviltece.

    Tudo se disputa. Somos um bando de corvos para uma caveira só.

    A batalha da vida só tem duas fases: ou vencer ou fugir,porque para os vencidos não há piedade.O suicídio é lógico, é justo, é necessário. Para que se vive? Para sofrer? Onde existe a verdadeira felicidade, a verdadeira paz? Na morte. “Ali os ímpios cessarão de tumultos e acharão descanso os cansados de forças” (Bíblia).

    Eu luto, eu sou forte, porque tenho a Morte pelo meu lado. E querendo eu morrer nem os homens nem Deus me poderiam impedir.

    Que o suicida é um cobarde? Não, cobarde é quem atura isto até ao fim. Então uma criatura que entrou na vida e se vai embora, lá por não poder ou não querer pactuar com a torpeza dela é um cobarde? Então eu que piso, eu que falseio, eu que minto, é que devo ser louvado pela minha coragem? Cobarde é quem cobarde lhe chama.Pudesses tu ver bem a vida e verias se o suicídio não é a única porta que o homem arrombou ao céu.

    Corri o mundo todo e por toda a parte vi a mesma desolação, a mesma luta, a mesma tragédia

    Vi a morte cem vezes e cem vezes a achei preferível à vida.

    Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio dum festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar.

    A vida é uma jornada. E todos os dias se anda um passo para a Morte."



    Se acharam interessante,o livro é encontrado nos sebos e na net para free download. Filtrados os exageros,restará muita coisa para meditar. Não gostou da postagem,ficou deprimido? Albino Forjaz Sampaio responde por mim:

    -Enchi-te de desolação e abandono. Que eu exagero? Mas isto ainda é pouco. A torpeza da vida não caberia em mil volumes como este. Que eu exagero?! Que eu Exagero?! Patife, tu bem sabes que eu digo a verdade!




    O homem é apenas um fenômeno, não a coisa-em-si: Schopenhauer, claro e direto, sobre uma ilusão chamada Vida

    Os homens no decorrer de suas vidas costumam fugir de indagações que perturbam, refugiando-se nas mais diversas distrações e vícios -sempre fugazes como a própria vida- ou comodamente aconchegando-se covarde e irracionalmente no colo anestésico das religiões e de um suposto Deus. Uns poucos privilegiados em inteligência enfrentam a transitoriedade da existência retirando-se de cena e tornando-se observadores do Teatro Vida: os filósofos. Se muitos são difíceis de serem lidos e entendidos pelas nossas mentes normais, alguns são mais diretos em suas observações e conclusões mas são evitados por desconhecimento e preconceito, perdendo-se incríveis fontes de conhecimento que muito ajudariam àqueles que resolvem enfrentar as interrogações da existência humana. São pratos de que não nos servimos se não nos oferecerem. Saboreie os trechos claros e diretos de Schopenhauer abaixo e volte ao arroz e feijão das ilusões se conseguir... (os negritos são meus)

    (...)Toda a nossa existência é fundamentada tão-somente no presente — no fugaz presente. Deste modo, tem de tomar a forma de um constante movimento, sem que jamais haja qualquer possibilidade de se encontrar o descanso pelo qual estamos sempre lutando. É o mesmo que um homem correndo ladeira abaixo: cairia se tentasse parar, e apenas continuando a correr consegue manter-se sobre suas pernas; como um polo equilibrado na ponta do dedo, ou como um planeta, o qual cairia no sol se cessasse com seu percurso.Nossa existência é marcada pelo desassossego.

    Num mundo como este, onde nada é estável e nada perdura, mas é arremessado em um incansável turbilhão de mudanças, onde tudo se apressa, voa, e mantém-se em equilíbrio avançando e movendo-se continuamente, como um acrobata em uma corda — em tal mundo, a felicidade é inconcebível. Como poderia haver onde, como Platão diz, tornar-se continuamente e nunca ser é a única forma de existência? Primeiramente, nenhum homem é feliz; luta sua vida toda em busca de uma felicidade imaginária, a qual raramente alcança, e, quando alcança, é apenas para sua desilusão; e, via de regra, no fim, é um náufrago, chegando ao porto com mastros e velas faltando. Então dá no mesmo se foi feliz ou infeliz, pois sua vida nunca foi mais que um presente sempre passageiro, que agora já acabou.

    (...)As cenas de nossa vida são como imagens em um mosaico tosco; vistas de perto, não produzem efeitos — devem ser vistas à distância para ser possível discernir sua beleza. Assim, conquistar algo que desejamos significa descobrir quão vazio e inútil este algo é; estamos sempre vivendo na expectativa de coisas melhores, enquanto, ao mesmo tempo, comumente nos arrependemos e desejamos aquilo que pertence ao passado. Aceitamos o presente como algo que é apenas temporário e o consideramos como um meio para atingir nosso objetivo. Deste modo, se olharem para trás no fim de suas vidas, a maior parte das pessoas perceberá que viveram-nas ad interim [provisoriamente]: ficarão surpresas ao descobrir que aquilo que deixaram passar despercebido e sem proveito era precisamente sua vida — isto é, a vida na expectativa da qual passaram todo o seu tempo. Então se pode dizer que o homem, via de regra, é enganado pela esperança até dançar nos braços da morte!

    Novamente, há a insaciabilidade de cada vontade individual; toda vez que é satisfeita um novo desejo é engendrado, e não há fim para seus desejos eternamente insaciáveis.

    (...)A vida apresenta-se principalmente como uma tarefa, isto é, de subsistir de gagner sa vie [para ganhar a vida]. Se for cumprida, a vida torna-se um fardo, e então vem a segunda tarefa de fazer algo com aquilo que foi conquistado — a fim de espantar o tédio, que, como uma ave de rapina, paira sobre nós, pronto para atacar sempre que vê a vida livre da necessidade.

    A primeira tarefa é conquistar algo; a segunda é banir o sentimento de que algo foi conquistado, do contrário torna-se um fardo.

    Está suficientemente claro que a vida humana deve ser algum tipo de erro, com base no fato de que o homem é uma combinação de necessidades difíceis de satisfazer; ademais, se for satisfeito, tudo que obtém é um estado de ausência de dor, no qual nada resta senão seu abandono ao tédio. Essa é uma prova precisa de que a existência em si mesma não tem valor, visto que o tédio é meramente o sentimento do vazio da existência. Se, por exemplo, a vida — o desejo pelo qual se constitui nosso ser — possuísse qualquer valor real e positivo, o tédio não existiria: a própria existência em si nos satisfaria, e não desejaríamos nada. Mas nossa existência não é uma coisa agradável a não ser que estejamos em busca de algo; então a distância e os obstáculos a serem superados representam nossa meta como algo que nos satisfará — uma ilusão que desvanece assim que o objetivo é atingido; ou quando estamos engajados em algo que é de natureza puramente intelectual — quando nos distanciamos do mundo a fim de podermos observá-lo pelo lado de fora, como espectadores de um teatro. Mesmo o prazer sensual em si não significa nada além de um esforço contínuo, o qual cessa tão logo quanto seu objetivo é alcançado. Sempre que não estivermos ocupados em algum desses modos, mas jogados na existência em si, nos confrontamos com seu vazio e futilidade; e isso é o que denominamos tédio. O inato e inextirpável anseio pelo que é incomum demonstra quão gratos somos pela interrupção do tedioso curso natural das coisas. Mesmo a pompa e o esplendor dos ricos em seus castelos imponentes, no fundo, não passam de uma tentativa fútil de escapar da essência existencial, a miséria.

    (...)O homem é apenas um fenômeno, não a coisa-em-si — digo: o homem não é [grego: ontos on]; isso se comprova pelo fato de que a morte é uma necessidade.

    E quão diferente o começo de nossas vidas é do seu fim! O primeiro é feito de ilusões de esperança e divertimento sensual, enquanto o último é perseguido pela decadência corporal e odor de morte. O caminho que divide ambas, no que concerne nosso bem-estar e deleite da vida, é a bancarrota; os sonhos da infância, os prazeres da juventude, os problemas da meia-idade, a enfermidade e miséria frequente da velhice, as agonias de nossa última enfermidade e, finalmente, a luta com a morte — tudo isso não faz parecer que a existência é um erro cujas consequências estão se tornando gradualmente mais e mais óbvias?

    (...)Quanta tolice há no homem que se arrepende e lamenta por não ter aproveitado oportunidades passadas, as quais poderiam ter-lhe assegurado esta ou aquela felicidade ou prazer! O que resta desses agora? Apenas o fantasma de uma lembrança! E é o mesmo com tudo aquilo que faz parte de nossa sorte. De modo que a forma do tempo, em si, e tudo quanto é baseado nisso, é um modo claro de provar a nós a vacuidade de todos deleites terrenos.

    (...)A ideia de que não somos nada senão um fenômeno, em oposição à coisa-em-si, é confirmada, exemplificada e clarificada pelo fato de que a conditio sine qua nonde nossa existência é um contínuo fluxo de descarto e aquisição de matéria que, como nutrição, é uma constante necessidade. De modo que nos assemelhamos a fenômenos como fumaça, fogo ou um jato de água, todos os quais desvanecem ou cessam diretamente se não houver suprimento de matéria. Pode ser dito, então, que a vontade de viver apresenta-se na forma de um fenômeno puro que termina em nada. Esse nada, entretanto, juntamente com o fenômeno, permanece dentro do limite da vontade de viver e são baseados nesse. Admito que isso é um pouco obscuro.

    Se tentarmos obter uma perspectiva geral da humanidade num relance, constataremos que em todo lugar há uma constante e grandiosa luta pela vida e existência; que as forças mentais e físicas são exploradas ao limite; que há ameaças, perigos e aflições de todo gênero.

    Considerando o preço pago por isto tudo — existência e a própria vida —, veremos que houve um intervalo quando a existência era livre de sofrimento, um intervalo que, entretanto, foi imediatamente sucedido pelo tédio, o qual, por sua vez, foi rapidamente sucedido por novos anseios.

    O tédio ser imediatamente sucedido por novos anseios é um fato também verdadeiro à mais sábia ordem de animais, pois a vida não tem valor verdadeiro e genuíno em si mesma, mas é mantida em movimento por meio de meras necessidades e ilusões. Tão logo quanto não houver necessidades e ilusões tornamo-nos conscientes da absoluta futilidade e vacuidade da existência.(...)



    (The Emptiness of Existence, de Arthur Schopenhauer)